RAN e REN

Passar para a gestão das autarquias?

Talvez um dia...

 

artigo de opinião publicado no Jornal Terras do Ave

A REN (Reserva Ecológica Nacional) e a RAN (Reserva Agrícola Nacional) foram dois conceitos criados na década de oitenta, pelo então ministro da Qualidade de Vida, Ribeiro Telles, para proteger da urbanização os terrenos de maior valor ecológico e agrícola, bem como aqueles onde seria perigoso construir.

O objectivo era, do ponto de vista da espécie humana, garantir que continuamos a ter o que beber (salvaguardando os cursos de água e afins), o que comer (preservando os terrenos mais férteis) e onde morar (evitando que a nossa casa seja evadida pelo mar ou por uma cheia, ou se desmorone montanha abaixo). Até aqui tudo bem.

O problema começou quando se definiram as receitas dos municípios, ou seja, quando se decidiu de onde viria o dinheiro para gerir a Câmara Municipal. Simplificando, da construção vem dinheiro. Da REN e da RAN, só vêm limitações (isto de uma forma imediatista).

Da mesma forma, acaba-se por impor uma espécie de jogo de azar aos proprietários de terrenos. Ou ganham o primeiro prémio, possuindo terrenos urbanizáveis onde fazem o que bem entendem e ganham uma pipa de massa. Ou sai a RAN e a REN na sorte, ficam extremamente limitados nas suas opções e pouco poderão ganhar com isso. Obviamente que o jogo não é justo para estes últimos, que têm a missão de gerir o nosso património comum mais importante.

Resultado? Especulação imobiliária. Corrupção. Desigualdade social. E a pobre da RAN e da REN, em vez de serem consideradas áreas de valor, passaram a ser considerados obstáculos, alvos a abater.

Qual a saída? Terá necessariamente que haver uma maior intervenção pública no mercado imobiliário. Terão que ser criados mecanismos para que os proprietários de terrenos de RAN ou REN, agora integrados na chamada Estrutura Ecológica Municipal, sejam devidamente compensados financeiramente por serem guardiões destes tesouros colectivos. E onde ir buscar dinheiro para estas compensações? Naturalmente à maior fonte de dinheiro fácil deste País: ao lucro de quem constrói.

Estes mecanismos já existem, mas são recentes e praticamente inexplorados (Decreto-Lei n.º 380/99). Para os novos PDM’s passa a funcionar, por exemplo, o direito dos proprietários à “distribuição perequativa dos benefícios e encargos” decorrentes do Plano, ou seja, procede-se à redistribuição de mais-valias pelos proprietários afectados.

 

Quanto à gestão das áreas da estrutura ecológica fundamental, há que aplicar a máxima “pensar globalmente, planear regionalmente e agir localmente”. Ou seja, é preciso ter uma visão nacional na identificação de prioridades e estratégias. A estrutura ecológica deve ser definida e delimitada ao nível regional (é o que já está a acontecer no Grande Porto, com a CCDR – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional prestes a apresentar publicamente a Estrutura Ecológica da região, um documento há muito aguardado, e que se espera que seja devidamente integrado no novo PDM de Vila do Conde). Finalmente a estrutura ecológica deverá ser gerida pelas Câmaras Municipais e pelos proprietários, por uma questão de proximidade.

Essencial será sempre a ampla possibilidade de participação do público em todos estes níveis de decisão.

 

Passar a gestão da RAN e REN para as autarquias!? Sou de opinião que se deve considerar essa hipótese, mas nunca antes de resolver o problema de base, ou seja, transformar mecanismos de obstrução de riqueza, em mecanismos geradores de receitas. Senão, e como obstáculos, estas áreas iriam simplesmente desaparecer do mapa.

Ou seja, as receitas das autarquias não podem estar dependentes do volume de construção. Urbanização e Conservação têm que ter pesos semelhantes como fonte de receitas (e já agora nos investimentos). E só depois de mudar isto, é que se poderia passar a gestão destas áreas para as mãos das Câmaras. E quando digo gestão, não incluo a delimitação, o poder de desafectação ou de autorizar construções, que no fundo é o que está na proposta que recentemente levantou tanta celeuma. Gerir é promover práticas de agricultura sustentável, os usos múltiplos da floresta, garantir a boa qualidade das águas...

 

Quanto à ROM (Reserva Ornitológica de Mindelo), e as suas áreas de RAN e REN, nunca estas foram suficientes para evitar todos os atropelos e agressões que se verificam diariamente. Apenas funcionam como travão à construção, o que já não é pouco. Em 2002 o actual vereador do Ambiente prometeu publicamente que no território da ROM estas áreas não seriam diminuídas. O novo PDM está à porta. Vamos a ver o que aparece.

 

Para terminar, apenas algumas “curiosidades”. O PDM de Vila do Conde definia uma área de Reserva Agrícola Nacional para o terreno onde se implantou a Siemens. Solução? PDM suspenso. Para a Lactogal, PDM suspenso. Para o Nassica? Nem se deram ao trabalho. As obras já começaram na área de RAN, com alteração profunda dos terrenos. Valores mais altos se levantam e os tempos são de descaramento.

 

 

Pedro Macedo

pedro.macedo@amigosdomindelo.pt