Protecção da Natureza e controle do crescimento urbano – o caso da Reserva Ornitológica de Mindelo

 

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A Associação dos Amigos do Mindelo para a Defesa do Ambiente orientou ao longo de 2003 um Estágio no âmbito do PRODEP III.

A estagiária Susana Silva, finalista da licenciatura de Planeamento Regional e Urbano da Universidade de Aveiro, natural de Vila do Conde, foi a autora do estudo “Protecção da Natureza e controle do crescimento urbano – o caso da Reserva Ornitológica de Mindelo”.

O estágio foi supervisionado pela Professora Doutora Filomena Martins do Departamento de Ambiente e Ordenamento.

Resumo

Este trabalho pretende discutir qual a importância da Protecção da Natureza em áreas urbanas e de que forma se deve ou não controlar o Crescimento Urbano em prol da sua preservação. Neste sentido procedeu-se ao estudo de um caso em particular que foi a Reserva Ornitológica de Mindelo, espaço este que apresenta graves problemas de preservação. Questões chave como o Desenvolvimento Sustentável e sua aplicabilidade, e as Agendas 21 Locais são uma forma de combater esta fragilidade que se denota neste local e noutros espalhados por todo o Território Nacional e até Internacional.

A metodologia adoptada para o desenvolvimento do trabalho compreendeu três grandes fases. A primeira consistiu na definição da problemática e objectivos a atingir com o projecto que foi elaborado. Para que sejam entendidos e suportados teoricamente foi necessário proceder a uma sustentação bibliográfica através de documentos científicos de organizações governamentais e de organizações não governamentais. A segunda grande fase partiu do entendimento da problemática através do suporte bibliográfico, para um caso em particular em que essa mesma se regista. O caso da Reserva Ornitológica de Mindelo situada no município de Vila do Conde é então estudado através de uma caracterização tanto biofísica como sócio-económica da área de estudo, através de entrevistas aos actores intervenientes nesta, ou seja através do reconhecimento e conhecimento da área sob as mais diversas perspectivas. A primeira e segunda fase estiveram sempre em ligação ou seja fez-se sempre uma tentativa de interrelacionar as duas de forma que houvesse uma correcta aproximação à realidade. A terceira grande fase foi o cruzar do conhecimento adquirido de modo a que se definissem estratégias e acções estruturantes a ter para que se possa proteger a Natureza e Controlar o Crescimento Urbano tanto no caso de estudo como em casos similares.

As principais conclusões retiradas deste estudo salientam a necessidade que a ROM e outras áreas com os mesmos problemas têm de serem defendidas, requalificadas, renaturalizadas e revivenciadas para que seja tida em conta a necessidade que as populações têm hoje em dia de ter espaços qualificados de lazer e de contacto com a Natureza. Desta forma a capacidade que o individuo tem de se identificar com algo ou com alguém deve ser explorada para que a prossecução destes locais seja levada a cabo, uma vez que é esta interacção beneficia a fiscalização destes locais e manutenção dos seus padrões de qualidade. Instrumentos como a Agenda 21 Local devem ser usados para que se atinjam os objectivos a que nos propusemos para um Desenvolvimento Sustentável e Sustentado das cidades em que vivemos.

 

Recomendações

Que:

1.                                     Se aproveite as potencialidades do local para integrar um possível corredor verde com a própria Cidade de Vila do Conde, aproveitando projectos que estão a ser desenvolvidos, como é o caso da Polis

2.                                     Se integre as áreas da Bouças, Lagoa e Duna de Vila Chã na delimitação da nova área a proteger devido as suas características naturais excepcionais sendo estas áreas muito importantes para a sobrevivência e prossecução de muitas espécies de fauna e flora que dependem destes locais e que continuando estas áreas sem qualquer tipo de protecção poderá vir-se a perder um valor natural inestimável

3.                                     Se proceda a um conjunto de acções que visem a protecção e manutenção dos elementos naturais fundamentais da área da ROM, como seja a instalação de uma rede de saneamento eficaz em Mindelo

4.                                     Seja promovida o envolvimento e a participação da população em geral, para o processo de ordenamento e gestão do território, através da implementação da Agenda 21 Local

5.                                     Seja criada uma figura jurídica que permita a Administração Pública intervir em solos privados de forma a evitar verdadeiros atentados à existência e manutenção dos recursos naturais existentes

6.                                     Se elaborem projectos específicos de recuperação e renaturalização, requalificação e enquadramento paisagístico das áreas degradadas

7.                                     Se reequilibre urbanisticamente o uso do solo que deverá ter em conta a contenção da expansão urbana em simultâneo com o desenvolvimento de novos equipamentos públicos (exemplo: Centro de Educação Ambiental)

 

Entrevistas

Apesar de ser um estudo com um forte carácter técnico, considera-se com particular interesse o resultado das entrevistas realizadas com o Vereador de Ambiente da Câmara Municipal de Vila do Conde José Manuel Laranja, o Presidente da Junta de Freguesia de Mindelo Pereira Cardoso e o então Director da DRAOTN, actual Vice-Presidente da CCDR (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte) Guedes Marques (expressando a sua opinião pessoal).

Todos têm presente o estado lamentável em que se encontra a ROM e recordam que tem havido por parte dos actuais proprietários um certo descuido e conivência com o constante bombardeio da área com todo o tipo de lixos provenientes da vivência humana. Para o Vereador do Ambiente da CMVC a ROM no presente momento é o reflexo da educação e da mentalidade do povo Português em que não se reconhece o valor existente do Património Natural.

Os entrevistados das entidades públicas e AAMDA reconhecem que a ROM não pode continuar no estado em que se encontra sem um estatuto legal, e que deverá ser feito um esforço no sentido de criar uma figura jurídica que salvaguarde a ROM do seu destino e que permita a intervenção por parte das entidades que sejam nomeadas para o efeito. Foi sugerido por parte do Presidente da JFM que fosse criada uma Área de Paisagem Protegida de Mindelo. O Director de Projectos da DRAOT – Norte refere que a Administração deve ter uma intervenção na ROM mais do que manter apenas aquela área REN.

Para o Director de Projectos da DRAOT-Norte (âmbito Nacional/Regional) a área deve ser o maior possível para que seja realmente viável criar uma entidade gestora para a área.

Para todos os entrevistados esta área tem interesse ao nível Regional e no contexto da AMP.

É ainda referido pelo Director de Projectos da DRAOT-Norte que este é um espaço que devidamente requalificado teria uma certa atractividade para a educação ambiental e para uma efectiva pro-actividade na preservação das dunas, podendo servir então de apoio a Escolas mesmo ao nível da AMP.

O facto de esta área ter tantos interesses em jogo leva a que existam pressões para que se faça algo em concreto na área. Para o Director de Projectos da DRAOT-Norte, este tipo de pressões fazem-se sentir das mais variadas formas, quer através do tribunal que recebe as queixas por vandalismo, e questiona a entidade sobre a actividade que tem tido no terreno, quer através da própria população, quer através da comunicação social, quer através da pressão exercida pela AAMDA, sendo que todos estes intervenientes mantêm o problema actual e fazem com que tenha alguma prioridade e algum incentivo para que se tomem medidas.

Da análise feita a variadas notícias da comunicação social a ideia que persiste é a de que parte dos proprietários pensam verdadeiramente que a ROM é um mito e neste Local não existem espécies florísticas ou faunísticas que valham a pena preservar. Para além deste facto têm a ideia de que os terrenos dos quais são proprietários valem fortunas e têm um potencial imobiliário muito grande uma vez que estão localizados junto à Costa. Como evidencia o Presidente da JFM este facto não tem qualquer fundamento uma vez que os proprietários dos terrenos não tiveram nunca até hoje nenhum instrumento orientador, nenhum instrumento regulamentador, do município, ou de outra entidade qualquer, que lhes criasse expectativas de que aqueles terrenos pudessem vir a valer este mundo e o outro.

Finalmente para todos os actores é esperado algo de muito positivo para a ROM. Todos estes manifestaram a esperança de que este Local tivesse um futuro risonho e fosse devidamente requalificado e preservado.

 

Outras citações do trabalho

“É de registar ainda que a evolução que a ROM sofreu desde os dias em que foi criada privilegiou não a Conservação da Natureza, mas o crescimento de aglomerados urbanos e a destruição do sapal tão importante para a proliferação de outras espécies para além do Homem.”

“Com este trabalho pôde ser concluído que assim como em outros sectores da nossa Sociedade existe falta de comunicação entre os vários níveis hierárquicos da Administração. Existem Planos em que são reunidos estudos feitos à área que diz respeito à ROM, e nos quais se realça a importância desta tanto para o município em que se integra geograficamente, como para a AMP e Região Norte. Existem vontades dos mais variados Agentes Sociais, quer políticos, quer populacionais para que se faça algo de positivo nesta área. Se todos os caminhos têm o mesmo fim porquê que ainda não foi feito nada para que se resolvesse o impasse em que esta área se encontra?”

“Enquanto eu estiver na Junta de Freguesia e mesmo fora dela enquanto eu puder lutar, seguramente que estarei ao lado daqueles que entendem que aquela é uma área a preservar”

Presidente da JF Mindelo

“O que eu gostava que fosse era um espaço em que o ambiente fosse preservado, um espaço requalificado, um espaço que eu tive o privilégio de conhecer como Vilacondense que lá passei muitas vezes, e que lá gozei, também aquele ambiente ímpar. Estou convencido que isso se vai concretizar, é uma questão de tempo, porque como disse há pouco, estas questões do ambiente são irreversíveis é uma questão de sobrevivência, inclusivamente. “

Vereador do Ambiente da CMVC

 

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