Reserva Ornitológica de Mindelo

primeira área protegida criada em Portugal

 

Primeiros registos no século XIX

O interesse manifestado pelos cientistas pela região de Mindelo remonta aos finais do séc. XIX, existindo registos de valiosas observações ornitológicas efectuadas por Reis Júnior, naturalista da Universidade do Porto, então a trabalhar na Estação Aquícola do Ave. Face ao valor das observações efectuadas chamou a atenção para proteger os “juncais de Azurara”.

 

Santos Júnior e os Roleiros de Mindelo

Falar da Reserva Ornitológica de Mindelo implica necessariamente falar de Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, professor do Instituto de Zoologia “Dr. Augusto Nobre” da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). Santos Júnior foi, juntamente com William Tait, pioneiro da anilhagem científica de aves em Portugal (com início em 1953). Ao longo da sua vida desenvolveu um trabalho inigualável em prol do conhecimento ornitológico nacional, tendo disseminado como ninguém o interesse pelo estudo das aves. Natural de Torre de Moncorvo, é possível visitar na Biblioteca Municipal deste Concelho uma exposição permanente e consultar todo o seu espólio.

 

 

Sabendo por informação do Prof. Azevedo Maia, catedrático da Faculdade de Medicina do Porto e natural de Fajozes, da tradição da caça à rola por rede em Mindelo (proibida em 1948), logo se lhe afigurou a seguinte possibilidade: se conseguisse que pudessem voltar a caçar rolas à rede, certamente teria nos "Roleiros" os necessários colaboradores para fornecer rolas vivas para anilhar.

Seguindo o conselho do amigo, foi a Mindelo nos primeiros dias de Setembro de 1953. Após hesitações e reticências  de alguns grandes lavradores-proprietários, velhos roleiros, o mais novo de todos, também lavrador-proprietário, António Jesus Pereira, com os seus 22 ou 23 anos, declarou: “Pois eu vou caçar rolas para o Sr. Doutor Santos Júnior, sem condições, mesmo de graça”.

Foi assim que, conseguindo que fosse permitida a caça à rola à rede na Reserva Ornitológica de Mindelo pelo Serviço de Caça da Direcção-Geral dos Serviços Florestais, obteve o apoio para a anilhagem por parte dos Roleiros do Mindelo, satisfeitos por poderem voltar à prática do seu “desporto” preferido.

 

Criação da Reserva

Em 1957 e a pedido de Santos Júnior, foi fundada pela Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas (entidade responsável na altura pela gestão dos recursos naturais) a “Reserva Ornitológica de Mindelo” com 411 ha (Decreto de 2 de Setembro de 1957, Diário do Governo, II Série, n.º 204), depois ampliada (Decreto de 15 de Maio de 1959, Diário do Governo, II Série, n.º 115) para 594 ha.

Criada ao abrigo do regime florestal, o objectivo promordial foi a protecção da avifauna, residente e migratória, bem como a recuperação das dunas. Ao Instituto de Zoologia (do qual Santos Júnior era director) competia a sua sinalização e fiscalização e aos proprietários a conservação da área, especialmente no que dizia respeito aos aspectos florestais e culturais.

A Reserva Ornitológica de Mindelo (ROM) foi assim, em 1957, a primeira área criada em Portugal com objectivos de conservação e a primeira reserva ornitológica da Europa, apresentando um grande valor histórico e simbólico.

Foi de facto um acto de grande pioneirismo, numa altura em que ninguém falava em áreas protegidas. Note-se que é apenas em 1970 que surge a lei sobre os parques nacionais e outros tipos de reservas, tendo sido criado o Parque Natural da Peneda-Gerês em 1971. A ROM foi criada 14 anos antes e com o apoio expresso de todos os proprietários, o que a torna um caso único no contexto das áreas protegidas.

O estatuto de regime florestal é ainda hoje legalmente válido, apesar de não ser cumprido.

 

Anilhagem de Aves

Nos anos que se seguiram à sua criação, a Reserva Ornitológica de Mindelo serviu de base a numerosos estudos científicos cuja importância ultrapassou as fronteiras nacionais. Na central de anilhagem então criada, participaram activamente os “Roleiros de Mindelo” transformando uma actividade tradicional numa actividade científica de grande importância. Ao todo cerca de  65.000 aves anilhadas de 150 espécies diferentes, merecendo especial destaque as rolas - cerca de 20.000, ainda hoje um “recorde” da Europa.

 

 

Santos Júnior, conhecido localmente por “Doutor das Rolas”, era o responsável por todo o processo de anilhagem, incluído a cunhagem manual de anilhas, tendo criado a anilha MUS. ZOOL. UNIV. PORTO - PORTUGAL. Acampou durante 25 anos na ROM, 15 a 20 dias em cada ano, para acompanhar a migração outonal das rolas.

Graças ao trabalho realizado, Santos Júnior foi eleito o primeiro Presidente da Secção Portuguesa do ICBP (International Council for Bird Preservation), tendo fundado a Sociedade Portuguesa de Ornitologia (1964) e editado a primeira revista científica especializada, a Cyanopica (1968).

Nesta época Vila do Conde era um concelho rural. Ainda não tinham eclodido o turismo de praia, nem as urbanizações com vistas sobre o mar e nem sequer os negócios das areias.

Assim a submissão ao regime florestal de simples polícia propiciou até certa altura uma protecção eficaz, apesar da escassez de meios financeiros: havia uma entidade gestora activa (o Instituto de Zoologia da UP), um regime legal de protecção (o regime florestal), um plano de gestão (aprovado logo com a criação da reserva e com o acordo dos proprietários envolvidos) e fiscalização capaz, factores que raramente se verificam noutras reservas naturais entretanto criadas.

A fiscalização era assegurada pelo próprio António de Jesus Pereira, guarda-florestal colocado ao serviço durante muitos anos pela Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas.

 

Conflitos de gestão

Apesar de todo o seu voluntarismo, Santos Júnior cometeu um erro que iria condicionar o futuro da reserva: centralizou todas as actividades nele próprio, nunca “passando o testemunho”. Na Faculdade de Ciências, entidade directamente responsável pela Reserva, o “Santos Júnior é que era a Reserva”. Este professor reformou-se, continuando a assumir tudo o que fosse relacionado com a ROM e, com a idade, foi perdendo influência.

Para isso contribuiu o facto de na década de oitenta, já com idade avançada, Santos Júnior ter sido induzido em vários erros por comerciantes de aves que o rodearam, tendo perdido muita da credibilidade científica que possuía, e levando ao afastamento de muitos dos seus colaboradores.

O problema agudizou-se em 1975 com a criação da Secretaria de Estado do Ambiente (SEA) para gerir os Parques e Reservas. Uma das acções então empreendidas foi a criação de um serviço centralizado de anilhagem (Centro de Estudo de Migrações e Protecção de Aves), sendo proibida a anilhagem por parte de outras entidades. Santos Júnior continuou a anilhagem, o que desde logo criou uma incompatibilidade com quem deveria assumir a gestão desta área. A Direcção-Geral dos Serviços Florestais criou igualmente divergências com a SEA devido ao passar do testemunho em termos de conservação da natureza (o próprio Parque da Peneda-Gerês só em 1986 passou para esta entidade).

O resultado foi que a ROM não foi incluída na rede nacional de áreas protegidas, ao contrário do que seria de esperar, ficando numa posição ambígua em termos de estatuto de protecção.

Falecido em 1990, Santos Júnior não teve nenhum sucessor na defesa desta área. Com o desinteresse da Faculdade de Ciência, a própria Direcção-Geral dos Serviços Florestais não substituiu o guarda da Reserva após a sua aposentação e a ROM foi “formalmente esquecida”.

 

Pressão urbanística e outras ameaças

A pouco e pouco e em especial a partir da década de setenta, aumenta a apetência urbanística dos terrenos onde a ROM está implantada, surgindo urbanizações, acessos rodoviários e infra-estruturas portuárias. As areias das principais dunas foram extraídas, depositaram-se lixos, poluíram-se as ribeiras, permitiu-se a expansão de espécies exóticas e proliferou a captura e abate ilegais de aves. A somar a isto, o avanço do mar devido à destruição do cordão dunar e os incêndios de origem duvidosa.

 

Evolução do uso do solo na ROM de 1958 a 2000

 

A área da ROM tem sofrido uma pressão urbanística fortíssima. De 1958 a 2000 os terrenos urbanos e industriais aumentaram 600%, passando de 4% a 26% da área total, com um crescimento médio de 89 m2 por dia. Anteriormente estes terrenos tinham maioritariamente ocupação florestal. As zonas húmidas reduziram-se em 70%.

 

Esta área é densamente construída comparativamente à totalidade do Concelho de Vila do Conde. O período 1971-1990 verificou o maior aumento no número de construções, em especial para casas de segunda habitação (90 novos edifícios por ano).

Em Março de 1974 o então Presidente da Câmara, José Silva Ramos, considera “como solução razoável e séria a extinção da Reserva”. Apenas o 25 de Abril terá conseguido travar muitos dos projectos de construção aprovados (a construção na altura era dinamizada por Arlindo Maia).

Em 1981 é autorizada pela Câmara Municipal a construção de uma fábrica de produtos químicos no lugar da Lagoa, contestada pela Junta de Freguesia de Mindelo, causando uma forte poluição que se vem somar à da Fábrica Têxtil de Mindelo.

Em Maio de 1984, durante as primeiras Jornadas da Vida Selvagem, é proposta a reformulação jurídica da ROM.

 

Quase extinção

Nos início dos anos oitenta anos surgiu um grande projecto urbanístico para a área entre Mindelo e Árvore, pairando sobre a Reserva o risco de extinção. O empreendimento turístico e residencial implica a construção de cerca de 1500 habitações turísticas, dezenas de campos de ténis, oito piscinas e pelo menos um hotel. Iria trazer uma pressão da ordem das seis mil pessoas, ficando a Reserva reduzida a uma faixa com 450 metros de largura. À frente dos empreendedores está José Maria Pinho, presidente do Rio Ave, e Arnaldo Sanfins.

 

projecto de autoria do Arq. Nuno Portas (urbanista da CMVC), para a empresa Sanfins e Pinho, Lda. (1983): “se o problema dos passarinhos fosse sério tê-lo-ia levado a sério”

 

O primeiro pedido de viabilidade surge em Novembro de 1982, tendo sido indeferido pela Câmara Municipal de Vila do Conde (CMVC) em 1983. Em 1984 surge novamente o projecto, entretanto reformulado, sendo contudo igualmente indeferido pela CMVC após parecer negativo da Direcção-Geral do Planeamento Urbanístico (DGPU). Contudo, é criada uma comissão consultiva com membros da CMVC, Comissão de Coordenação da Região Norte (CCRN) e DGPU, tendo várias reuniões em 1984 e 1985. O então Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, Fernando Gomes, ex-Presidente da CMVC, autoriza a reapreciação do processo e a comissão conclui pela aprovação condicional do estudo. Em Dezembro de 1985 a CMVC aprova o estudo urbanístico do loteamento, afirmando o Presidente Mário de Almeida “esta pretensão é importantíssima para Vila do Conde e é também importante para protecção ornitológica e das dunas”. Mais tarde defende que se deverá verificar a abertura “entre as duas grandes manchas de construção de um grande parque público arborizado”.

Em 1986 surge uma forte contestação ao projecto por parte de Santos Júnior em nome da Sociedade Portuguesa de Ornitologia (SPO), Associação Quercus, Direcção-Geral de Florestas e Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (SNPRCN), bem como o próprio Carlos Pimenta, então Secretário de Estado do Ambiente e Recursos Naturais, e o Governador Civil do Porto (Carlos Brito). António Pereira, antigo guarda da Reserva, junta a sua voz à contestação, bem como vários membros do PSD (Orlando Taipa e Carlos Duarte, então vereador da CMVC).

Santos Júnior defende que a importância da ROM não diminuiu, sendo local privilegiado para aves migratórias e sedentárias. Argumenta que apenas 33 das 150 espécies de aves que utilizam a Reserva seria preservadas no “parque”.

O SNPRCN emite um parecer em que considera o impacte do projecto “incalculável e certamente indesejável”, um “precedente de extrema gravidade”.

A Assembleia Municipal rejeita em Julho uma moção apresentada por Domingos Leite de Castro (PSD) no sentido de se tomarem medidas para parar a destruição da ROM. João Malheiro, da Aliança Povo Unido, ameaça levar a questão à Assembleia da República. Recorde-se que a composição da Assembleia de Vila do Conde era na altura composta por 40 deputados do PS, 12 do PSD, 4 do CDS, 2 da APU e 1 do PRD.

Em Outubro Mário de Almeida (presidente da CMVC) afirma que “considera importante manter a Reserva, sendo exigível defini-la claramente, redimensionando-a no perímetro estudado como conveniente”.

Ainda em Outubro a SPO e a Quercus enviam cartas à Assembleia Municipal, afirmando que “um ‘parque público’ nos moldes apresentados nesta assembleia nada teria que ver com a manutenção e respeito pela reserva, que pura e simplesmente deixaria de existir”.

No dia 28 de Outubro o deputado António de Sousa Pereira, do PRD, leva a questão à Assembleia da República, alertando para a “ameaça de destruição que paira sobre a Reserva”. O PRD ameaça levar o “caso” à Alta Autoridade Contra a Corrupção.

O Secretário de Estado da Administração Local e do Ordenamento do Território (Carlos Pimenta) ordena a realização de um “estudo e intervenção com averiguação local” e afirma que “a confirmarem‑se as afirmações expressas por estas três entidades (SPO, Quercus e PSD) que me abordaram pessoalmente em deslocação recente a Vila do Conde, estaríamos perante um grave atentado aos valores naturais que a reserva procura preservar”. 

Ao longo do ano são publicados numerosos artigos na imprensa regional e nacional (parte integrante do arquivo histórico da Associação dos Amigos do Mindelo). Ocorrem demissões na Rádio Foz do Ave por alegadas pressões.

 

Acordar de consciências

A grande discussão pública que então surgiu teve a vantagem de acordar consciências.

Em Novembro de 1986 a CCRN, após afirmar que formalmente não houve parecer positivo para o projecto, dinamiza uma reunião com membros da CMVC, SNPRCN e Direcção-Geral do Ordenamento do Território (a DGPU foi entretanto extinta). Decide-se pela criação de regulamentação cautelar para a área, bem como a criação de uma área de paisagem protegida, com criação de um observatório ornitológico e de um centro de educação ambiental.

 

 

estaleiros

 

Ano Mundial do Ambiente

 

Fevereiro de 1992 criada a Associação dos Amigos do Mindelo para a Defesa do Ambiente, graças a um forte impulso de Felícia Cruz, tendo como presidente da Direcção António Martins Pereira e presidente da Mesa da AG Joaquim Pereira Cardoso.

 

Foram muitas as vozes em favor da manutenção deste espaço natural e efectuaram-se vários estudos de viabilidade da Reserva. Todos eles – Quercus-Associação Nacional de Conservação da Natureza, Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, Departamento de Zoologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, entre outros - foram unânimes quanto à necessidade de manter a Reserva Ornitológica de Mindelo. O projecto urbanístico acabou por ser inviabilizado pela Comissão de Coordenação da Região Norte e pela Secretaria de Estado do Ambiente, tendo-se preparado a criação de uma Área de Paisagem Protegida para o Mindelo. O Decreto-lei estava redigido e pronto para aprovação em Conselho de Ministros. Mais uma vez não se passou de intenções, voltando tudo à estaca zero.

 

Apesar da degradação a que se chegou e da ambiguidade do seu estatuto de conservação, a Reserva Ornitológica de Mindelo foi conseguindo sobreviver.

Continuou a ser visitada por muitos naturalistas profissionais e amadores e foi local de numerosas aulas de campo (sobretudo do Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto).

 

Que futuro?

O processo acelerado de urbanização referido foi potenciado pela abertura de novos acessos ao Porto (IC1) e o aumento da zona industrial. A entrada em funcionamento do Metro, a expansão em curso da zona industrial (Lactogal, Globe Motors...), e a construção do maior parque comercial, empresarial e de lazer do pais (Nassica), irão fazer sentir a sua influência nos próximos anos de uma forma que poderá ser arrasadora se não se tomarem as medidas de protecção necessárias.

Na última década a população residente tem aumentado a níveis elevadíssimos, tornando esta área num dormitório com crescente má qualidade de vida. Note-se por exemplo que o número de famílias residentes aumentou 46% entre 1991 e 2001, o dobro do que se verificou em termos médios na Área Metropolitana do Porto. 

 

 

1998 incendios

 

criação do Movimento PROMindelo

nome descrição de Raúl Proença no Guia de Portgal

Em 1987 a Comissão de Coordenação da Região do Norte (actual CCDR) e o Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (actual ICN) elaboraram o “Plano Preliminar da Área de Paisagem Protegida do Mindelo - Vila do Conde” e uma proposta de articulado de “Projecto de Diploma de Reclassificação da Reserva Ornitológica de Mindelo em Área de Paisagem Protegida”. O objectivo era criar um enquadramento legal que protegesse a ROM face às novas pressões existentes, nomeadamente da pressão imobiliária, potenciando um “espaço acolhedor de primordial importância para a região”. O Diploma estava redigido e pronto para aprovação em Conselho de Ministros mas, misteriosamente, nunca viu a luz do dia.

manual de métodos, texto de introdução de Luís Braga da Cruz, então Presidente da CCRN, mas não foi implementada nenhuma medida de protecção

Em Junho de 1991 o SNPRCN elabora um parecer sobre Mindelo em que defende que a “área deverá ser classificada em diploma legal adequado”, e que entretanto “seja inequivocamente consagrada no PDM em fase de elaboração”. O parecer é enviado para a Câmara Municipal de Vila do Conde pelo Secretário de Estado do Ambiente, Eng Macário Correia

ver proposta CCDR

Entretanto, e em face de uma reavaliação da situação, foi considerado por parte do SNPRCN que não existiriam valores naturais que fundamentassem a criação de uma Área Protegida de significado nacional, face à legislação em vigor que não previa áreas de interesse regional ou local, considerando-se no entanto conveniente prever-se uma zona de valores naturais a proteger, a consignar em PDM (Plano Director Municipal).

Conferência proferida em Novembro de 1996 para a AAMDA por Paulo Fontoura “Passado, Presente e Futuro da Reserva Ornitológica de Mindelo”

Em 1993 é criado um refúgio de caça (reserva de caça VLC 1, com 411 ha), instituído pela Portaria n.º 725-E/93, de 10 de Agosto de 1993, nos termos da "antiga" Lei da Caça. Esta delimitação proíbe o exercício da caça, sendo ainda hoje válido.

Esta área continuou assim a ser visitada por muitos naturalistas profissioanais e amadores, e local de numerosas sulas de campo, em especial da FCUP, no âmbito de disciplinas como “Ambiente e Conservação” do curso de Biologia.

Em Dezembro de 1993 é realizado o trabalho “Reserva Ornitológica de Mindelo: caracterização geral e avaliação do ecossistema” por alunos da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). Conclui que “é inquestionável o valor ecológico e ornitológico da zona (...) é necessário estabelecer normas que a protejam de qualquer iniciativa que acabe por a destruir”. É apresentada uma proposta de zonamento da área e acções a realizar. Defende a “criação de uma área protegida de gestão regional que não se insere em nenhuma categoria já definida legalmente”.

São regularmente elaborados trabalhos desta natureza.

O PDM de Vila do Conde foi aprovado em 1995. Na Planta de Condicionantes estão referidos os limites originais para a ROM, bem como os limites do Biótopo Corine. São previstas amplas zonas de construção em Mindelo, Árvore e Azurara, a par de áreas de Reserva Ecológica Nacional, Reserva Agrícola Nacional e Áreas Agro-florestais e de enquadramento. É definida uma Unidade Operativa de Planeamento e Gestão (UOPG 15 Silvares) para a área localizada entre Mindelo e Árvore. Os objectivos definidos são  “elaboração de plano de ordenamento com objectivos de salvaguarda e conservação das características ambientais; protecção e valorização paisagística; recuperação ambiental de áreas degradadas; valorização de actividades culturais e científicas; compatibilização com as áreas de ocupação urbana envolventes; localização de equipamentos de apoio.” Esta área, com XXX hectares, surge referenciada como “área natural a proteger” nos objectivo de intervenção.

Em Setembro de 1998 é entregue à Junta de Freguesia de Mindelo, a seu pedido, o trabalho “Sugestões para a Recuperação e Viabilização da Reserva Ornitológica de Mindelo”, de autoria do Prof. Paulo Fontoura do Departamento de Zoologia e Antropologia da FCUP

conferência na Junta

            Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC) de Caminha-Espinho

(Resolução do Conselho de Ministros n.º 25/99 de 7 de Abril)

 

(Resolução do Conselho de Ministros n.º 166/95 de 12 de Dezembro, com alterações posteriores)

ligação ao relatório de sustentabilidade

área proposta como biótopo e integrado no Programa Corine.

sua classificação como Biótopo Corine (n.º C11400138)

 

 Isto apesar de ter sido afirmado publicamente pela Câmara Municipal não pretender aumentar as manchas urbanizáveis.

Movimento PROMindelo

Em 2001 é lançado o Movimento “Região do Porto – Áreas Naturais para o Século XXI”. 2001 signatários pedem aos Poderes Públicos a criação de uma rede regional de áreas protegidas, onde seja incluída a Reserva Ornitológica de Mindelo. Em Janeiro de 2002 é organizada uma conferência / exposição no Parque Biológico de Gaia.

caça

pooc

Na reunião da Assembleia Municipal de 29 de Dezembro de 2000 foi aprovada por unanimidade uma moção proposta pela bancada do PP exigindo “atento acompanhamento da situação por parte de todos os órgãos que tutelam a Reserva Ornitológica de Mindelo, bem como uma rápida execução de um plano que permita não só evitar a degradação da reserva, mas torná-la aprazível e educativa, fazendo assim cumprir o objectivo para o qual foi criada”. Esta moção foi enviada ao Ministério do Ambiente tendo o Secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza, por despacho de 19 de Janeiro de 2001, decidido cometer ao Presidente do Instituto de Conservação da Natureza (ICN) a responsabilidade de propor uma estratégia de preservação da ROM.

Foi então criado um “Grupo de Trabalho Informal” no ICN que terá iniciado os seus trabalhos, de acordo com carta do Conselho de Ministros de 20 de Junho de 2001, enviada ao Deputado Honório Novo (PCP) na sequência de um seu requerimento sobre a matéria. Várias iniciativas para saber do “paradeiro” deste grupo de trabalho foram infrutíferas.

Em Novembro de 2002 a Câmara Municipal adere à Fundação Património Natural com o objectivo de “contribuir para transformar a ROM num espaço classificado, qualificado e destinado à preservação da Natureza.”

Aproveita-se a oportunidade para divulgar uma correspondência recebida do ICN em Julho de 2003, assumindo a pertinência de criar a área de paisagem protegida em Mindelo, mas responsabilizando a Câmara Municipal pela realização do respectivo pedido de classificação.

No dia 23 de Outubro de 2003 a Reserva Ornitológica de Mindelo foi tema de debate na Assembleia da República. Dois Projectos-Lei para criar uma área de paisagem protegida em Mindelo foram "chumbados". Foi aprovado um projecto de resolução, recomendando ao Governo que “crie (...) a área de paisagem protegida da Reserva Ornitológica de Mindelo.” Os deputados da maioria governamental afirmaram que aprovavam o projecto de resolução e não os projectos-lei por questões constitucionais, comungando contudo dos seus objectivos. Os deputados da oposição consideram que se tratou de uma manobra de diversão para adiar a solução do problema.

O Movimento PROMindelo – Pela Reserva Ornitológica de Mindelo deslocou-se a Lisboa para assistir ao debate parlamentar com uma delegação de jovens Mindelenses, membros do grupo PerCurtir, tendo aproveitado a oportunidade para entregar ao Presidente da Assembleia da República cerca de 7.000 assinaturas em defesa da ROM, aceites como Petição. A "comitiva" integrou membros da QUERCUS, do FAPAS e da LPN (Liga para a Protecção da Natureza). A Junta de Freguesia de Mindelo enviou carta aos deputados defendendo a criação de uma área de paisagem protegida.

Na sequência da aprovação da Resolução da Assembleia da República n.º 80/2003 o então Secretário de Estado do Ordenamento do Território solicitou ao Instituto de Conservação da Natureza um parecer conclusivo, devidamente fundamentado

Na semana que se seguiu à discussão na Assembleia da República, a Reserva Ornitológica de Mindelo foi discutida em Reunião de Câmara, tendo sido decidida a criação de um Grupo de Trabalho. O Vereador do Ambiente, José Manuel Laranja, apresentou a seguinte proposta: “Ciente de que a recuperação daquela vasta área será um factor de desenvolvimento económico e uma notória mais valia para o bem estar das populações e para o turismo, nomeadamente uma resposta à crescente procura verificada no turismo-natureza, e dando sequência aos contactos que vem desenvolvendo com a Fundação Património Natural, propõe-se que a Câmara Municipal sugira ao Governo que determine que a Comissão de Coordenação da Região Norte e o Instituto de Conservação da Natureza integrem um Grupo de Trabalho com a Câmara Municipal que, em simultâneo com a criação de uma Comissão Local de Acompanhamento – integrando as Juntas das Freguesias de Árvore e Mindelo e Associações Ambientalistas – ultime a elaboração de um Plano e de um Regulamento que vise a preservação e valorização de todo aquele vasto espaço, desejavelmente elaborado pela Fundação Património Natural, transformando-o num elemento fundamental para a qualidade de vida e para a formação e lazer das populações”.

A proposta foi aprovada por maioria, com voto contra dos vereadores da coligação PPD/PSD-CDS/PP. Apesar de concordarem com a criação da Comissão, de acordo com a sua declaração de voto, os vereadores manifestaram a opinião que esta decisão apenas repetia “de forma mais pobre e redutora” a recomendação ao Governo aprovada em Assembleia da República. Em comunicado de imprensa manifestaram o seu total apoio à promoção da Reserva Ornitológica de Mindelo.

Em Dezembro de 2003 a Assembleia Municipal de Vila do Conde aprovou uma moção apresentada pelo CDS‑PP afirmando “que seja preservada aquela área e seja encontrada uma solução que trave o processo de desertificação e abandono da actual ROM, nomeadamente, através da criação de uma área de paisagem protegida. As autarquias, em coordenação com o Governo, deverão encontrar e definir o modelo de funcionamento e gestão da mesma que permita o justo equilíbrio entre todos os interesses envolvidos.” O Presidente da Câmara referiu que o importante era saber se a reserva terá âmbito nacional ou regional.

No final de 2003 foi apresentada na Assembleia da República, em sede de discussão orçamental, uma proposta de inclusão de verbas destinadas à preservação e defesa da Reserva Ornitológica de Mindelo.

Em Abril de 2004, após várias solicitações por parte da AAMDA, o Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas confirma que a o estatuto original da ROM, ao abrigo do regime florestal, ainda á valido apesar de já não ser cumprido. Considera que “será oportuno rever a submissão ao regime florestal de simples polícia desta área (...) a protecção dos valores faunísticos continuará a ser assegurada pela existência da reserva integral de caça”. Apesar dos vários esforços desenvolvidos junto do MADRP, a delimitação da reserva integral de caça (que impede a prática da caça na área da ROM) nunca foi realizada.

No mesmo mês o Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente emite um parecer, a pedido da Comissão de Poder Local, Ordenamento do Território e Ambiente da Assembleia da República (a preparar o seu próprio parecer sobre a Petição da AAMDA) afirmando que a melhor solução para a área é a criação da Área de Paisagem Protegida (áreas consideradas de interesse local ou regional), sendo necessário de acordo com a lei que a Câmara Municipal apresente o pedido de classificação.

A Câmara Municipal envia igualmente um parecer à Comissão de Poder Local, Ordenamento do Território e Ambiente manifestando que "temos em Árvore/Mindelo uma vasta área de inquestionável interesse natural", considerando que a "recuperação da ROM pode ser um factor muito importante para a Área Metropolitana", nomeadamente como "grande zona verde, com vocação para a conservação da natureza, mas também para o recurso ao lazer das populações". Refere que o PDM prevê uma nova delimitação com uma área de 200 ha e que “aguarda com enorme expectativa que se concretize uma figura jurídica que não só defenda toda aquela área mas ao mesmo tempo crie as condições administrativas e financeiras que permitam potenciá-la para bem do ambiente, da cultura e do recreio”.

Foi dirigida uma Carta Aberta ao Presidente da República, no âmbito da Presidência Aberta do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, convidando-o a visitar a mais emblemática das áreas protegidas em Portugal: a Reserva Ornitológica de Mindelo, criada 14 anos antes do Parque Nacional da Peneda-Gerês e o último reduto natural na costa do Grande Porto, hoje "em extinção".

Respondendo a um desafio dos Amigos do Mindelo, investigadores da Universidade do Porto juntaram-se para defender a Reserva Ornitológica de Mindelo, assumindo assim a sua responsabilidade histórica (a Reserva foi criada a pedido da UP). Foi criado um grupo de trabalho que actualizou a "carta de valores naturais", concluindo que a sua preservação é fundamental... e urgente! A Universidade apresentou à Câmara Municipal de Vila do Conde a sua disponibilidade para preparar, de acordo com a lei, a proposta de classificação deste espaço enquanto Área de Paisagem Protegida.

O Bloco de Esquerda apresentou em Maio de 2004 um requerimento dirigido ao Ministério do Ambiente em que questiona quais as diligências efectuadas para classificação da Reserva Ornitológica de Mindelo como área de paisagem protegida, na sequência da decisão da Assembleia da República. Aguarda resposta.

Na Assembleia Municipal de Vila do Conde realizada em Junho de 2004 foi aprovado um voto de protesto pelo facto de o Governo não ter dado seguimento à iniciativa da Assembleia da República relativamente ao estudo e criação da Reserva Ornitológica de Mindelo.

rever outros www da rom

rever proposta de intervenção (actualizar na net)

Junta....

No dia 29 de Setembro de 2004 foi discutida no Plenário da Assembleia da República a Petição entregue pelos amigos do Mindelo, com 7000 assinaturas, solicitando a recuperação urgente da Reserva Ornitológica de Mindelo. Os partidos da maioria governamental desafiaram a Câmara Municipal para apresentar o pedido de classificação como Área de Paisagem Protegida, garantindo o apoio do Ministério do Ambiente e do Instituto de Conservação da Natureza. Os partidos da oposição exigiram o cumprimento da recomendação ao Governo aprovada em 2003.

O PCP aproveitou a discussão no Parlamento para apresentar na Mesa da Assembleia da República um novo Projecto-lei para a “Criação da Área de Paisagem Protegida da Reserva Ornitológica de Mindelo”, ficando a aguardar agendamento.

No final do Fórum de Sustentabilidade (9 de Outubro de 2004), o Presidente da Junta de Freguesia de Mindelo afirmou que a Câmara Municipal de Vila do Conde irá apresentar a muito curto prazo um pedido oficial de classificação para a área, caso o Governo não apresente conclusões dos estudos em curso.

agenda 21

 

ver

agenda 21 / propostas de intervenção

historial (2), relatórios de outros anos (todos, inc rom)

acções de EA realizadas, promessas coloquio

edições

bibliografia

actualizar

movimento áreas naturais

rom_historia / protecção legal / chegou a hora / votaçao / proposta de intervenção

rol_roleiros

estrutura ecologica

 

Nos arrabaldes rústicos do Porto, nas margens dos rios, nos pinhais junto ao mar, ou nos cabeços

arborizados das serras, tem a população belíssimos locais para passear, repousar e tomar excelente

ar. Julgamos poder definir assim este dispositivo verde exterior: Parques suburbanos: Mindelo,

Ponte da Pedra, Monte Castro, Monte da Virgem, Marginal do Douro; Reservas regionais: Serra de

Valongo, Crestuma, Matinha. e Grandes reservas nacionais: Marão, Gerês, Leiria.’ (Garrett, 1952,

pp. 15-16).

Estudo de Caracterização Ambiental da AMP de 1999, promovido pela

Junta Metropolitana do Porto, que propõe a constituição de uma Estrutura Ecológica Principal onde

se destacam os vales dos rios Douro, Leça e Ave e dos seus principais afluentes, a faixa litoral, as

zonas de RAN e REN, as zonas florestais tampão a nascente, um conjunto de Biótopos e ainda os

espaços canais.