Contra a Ditadura dos Adultos

Brasil e Argentina na liderança

 

 

A nossa mãe cultura por vezes prega-nos esta partida: repete tantas vezes uma mentira que nós acabamos a acreditar nela. Uma das mais ouvidas é “Os Jovens são o Futuro”. E na realidade o jovem no futuro não é jovem, é adulto. No fundo estamos a dizer: tenham calma com os vossos ímpetos próprios da idade, a vossa vez de tomar decisões chegará, aguardem que estão em transição...

E o que é que a sociedade consegue com esta mentira? Manter a ditadura dos adultos, afastando das decisões políticas 20% da população. Consegue desprezar todo um brilhante conjunto de ideias e contribuições que, diga-se em abono da verdade, grande parte das vezes são bem mais “frescas” e criativas do que as dos adultos. Desresponsabiliza os jovens pelo presente, afasta aqueles que poderiam melhorar as nossas vidas, pela simples razão de que são os únicos que acreditam profundamente que podem mudar o mundo.

No dia 30 de Abril do ano passado parti para a América do Sul, dando início a uma viagem de mais de 18.000 km pelo ar e 3.500 por terra, para descobrir de que são capazes os jovens quando assumem o presente como deles.

Encontrei-me em Buenos Aires com Ricardo Bertolino, o criador do modelo “Ecoclube”, que tem como objectivo treinar os jovens para serem protagonistas nas suas comunidades. Iniciamos um serpentear pela Argentina e Brasil, na nossa mini-bus transformada em “caravana internacional da juventude”, com passageiros da Suiça a Marrocos, da Bielorrúsia ao Uruguai. Visitando Ecoclubes em cada paragem, descobrimos como é vibrante e emocionante este movimento de jovens que estão a enfrentar os problemas que afectam a qualidade das suas vidas, combatendo a malária com campanhas de sensibilização porta-a-porta, recebendo lixo para reciclar e entregando sementes em troca, oferecendo e plantando árvores.

Descobrimos por exemplo como o Ecoclube de Mercedes enfrentou as injustas acusações de estar a prejudicar o sucesso escolar dos seus membros. Juntaram-se, apoiaram-se mutuamente nos estudos e no final do ano todos melhoraram as notas. É com as lágrimas nos olhos que os jovens deste Ecoclube nos contam como encontraram um espaço seguro para se exprimirem, para fazerem novas amizades, para se sentirem importantes e úteis, valorizados na sua acção pela comunidade e com a comunidade.

Descobrimos como os Ecoclubes se reúnem todas as semanas, elegem líderes e representantes, organizam actividades, fazem contactos com políticos e empresários, professores e bombeiros, jornalistas  e comerciantes, articulando e financiando a sua acção. No fundo, aprendendo a exercer a cidadania. Esta imensa rede internacional junta já 10.000 jovens organizados em 450 Ecoclubes em 20 países.

Em Toledo participei no encontro de promotores nacionais e facilitadores locais dos Ecoclubes, adultos em serviço aos jovens, para lhes transmitir as ferramentas de mudança, para construir com eles estes microcosmos de democracia em acção.

Parti então para Curitiba, “capital das grandes ideias”. Nesta cidade de 1,6 milhões de habitantes descobri o Modelo Curitiba de Colaboração que tem como um dos esteios o projecto “Escola Participativa”. Mais uma vez são os jovens que são incentivados a participar na resolução dos problemas. Uma das iniciativas propostas e implementadas pelos alunos em conjunto com a comunidade foi sair às ruas e pedir aos motoristas que respeitem as leis de trânsito. Foram ainda trocadas armas de brincar por brinquedos “amigáveis”, e promovida a transformação da escola em verdadeiro centro de decisões do futuro da comunidade. Este programa já está implantado em 60 das 162 escolas de Curitiba, e é reconhecido pela Nações Unidas como exemplo de gestão de governabilidade local.

Finalmente na cidade de S. Paulo, mega-metrópole de 20 milhões de habitantes, onde o desemprego é superior a 20% e os helicópteros que riscam os céus transportam 85% dos mais ricos do Brasil, descobri mais um projecto surpreendente. Alunos das escolas partilham as experiências das suas comunidades e decidem sobre os projectos que devem fazer parte do Orçamento da Capital do Estado. É o chamado projecto Orçamento Participativo Criança (OP Criança), em que jovens dos 7 aos 15 anos escolhem as melhores soluções para a cidade, seguindo a metodologia do OP da população adulta: são promovidas reuniões e debates, são eleitos representantes e votadas as acções e projectos que melhor resolvem as necessidades. O ano passado participaram 53 mil alunos das escolas municipais, em cerca de 450 assembleias.

A participação no 7º Encontro Ibero-americano do Terceiro Sector (que juntou quase 1.000 pessoas em S. Paulo) e no Encontro de líderes da Avina (patrocinadora desta viagem) foi ainda uma oportunidade para conhecer iniciativas como o Projecto Aliança com o Adolescente pelo Desenvolvimento Sustentável ou o Programa Prefeito Amigo da Criança da Fundação Abrinq.

A América Latina, apesar de todas os problemas, tem muito a ensinar-nos na forma como está a tentar “dar a volta por cima”, mobilizando os jovens (e adultos). Foi por esta razão que percorremos Portugal, na semana passada, com o Ricardo Bertolino da Rede Internacional de Ecoclubes. É com esta inspiração que estamos a apoiar o Ecoclube de Mindelo, primeiro de Portugal e segundo da Europa. Esperemos que os jovens de Vila do Conde continuem a dizer “Presente!”.

 

Pedro Macedo

Crónica publicada n “O Primeiro de Janeiro” de 28 de Janeiro de 2005